O Preço do Poder (Será Que Quer Mesmo Ser Poderoso?)

Ainda às voltas com o livro “Poder” e já perto do seu término, surge outro assunto com extrema importância que merece uma exposição no Jovem Empreendedor.

Numa fase inicial do livro, o autor refere que o poder pode ser benéfico de alcançar pois permite uma subida de estatuto – uma vida mais longa e uma saúde melhor, o potencial para utilizar o poder e a fama a fim de criar riqueza, e a capacidade para conseguir importantes mudanças sociais e organizacionais. Na fase final, é mostrado o outro lado da equação, que são os custos associados ao alcance e à manutenção de poder.

Refiro-me a estes custos, não tanto para quem atingiu o poder por mérito ou por ser alguém nato a exercer poder, porque para essas pessoas os custos associados ao poder são abraçados e são um incentivo ao dia que se segue. Prefiro referir-me aos custos listados abaixo relativamente a pessoas que atingiram o poder não por lhes estar no sangue mas por mera ganância de se sentir poderoso, de poder exercer uma função com poder, para sentir que o rumo dos acontecimentos depende da sua palavra.

Independentemente das intenções ou do caminho percorrido para chegar ao poder, “é inegável que quem procura e obtém poder, muitas vezes paga um preço elevado pela conquista, para se agarrar à posição, e por confrontar as difíceis mas inevitáveis transições para longe das posições poderosas.”. Perante este cenário, temos os seguintes custos:

Custo 1: Visibilidade e Escrutínio Público

Todos gostam de períodos íntimos e todos têm dias em que só faz sentido abrir o guarda roupa e tirar a primeira peça que venha à mão. Os cargos de poder, muitas vezes, tiram esses direitos e desvairos, e quase sempre da maneira mais cruel ou não fosse de conhecimento público os escândalos quase semanais de envolvimentos sexuais, fotos comprometedoras, etc.. O facto é que ser poderoso atrai os media e atrai os olhos públicos para qualquer movimento, e um movimento em falso não perdoa.

Em Janeiros de 2005, dois funcionários de uma grande empresa de manufactura americana, um dos quais estava divorciado e outro ainda casado, deram início a um romance consensual. Nunca houve qualquer prova de assédio sexual, nem de avanços rejeitados – foi uma atracção mútua. Há milhares de incidentes do mesmo género todos os anos, a maioria dos quais tem pouca ou nenhuma consequência para as carreiras profissionais dos envolvidos. Mas não neste caso, já que o homem envolvido era Harry Stonechipher, CEO da Boeing, e a mulher era uma vice-presidente da empresa. O conselho de administração da empresa da Boeing solicitou, e obteve, a demissão de Stonecipher quando o caso chegou ao seu conhecimento, graças a um delator interno. Uma lição importante: se vai portar-se mal de alguma forma, faça-o antes de alcançar uma posição de alto nível que o torne objecto de atenção constante dos seus pares, subordinados e superiores e dos meios de comunicação.

Não são apenas as coisas grandes a atrair o escrutínio quando se está no poder. Quando Rudy Crew geria o distrito escolar de Miami-Dade, enfrentou comentários públicos quando ao facto de conduzir um Mercedes. Um repórter achou importante escrever que, num restaurante self-service, ele não arrumou o tabuleiro no final da refeição. Todo este escrutínio vai dificultar o seu trabalho. Se alguma vez tocou um instrumento musical, estou certo de que se recorda do primeiro recital. Se for como a maioria das pessoas, tocar enquanto os outros observam é uma experiência diferente e mais exigente que tocar sob o olhar do professor de música, ou dos seus pais, ou melhor ainda, sozinho. Um recital é muito mais desgastante. Esse desgaste leva a que as pessoas esqueçam notas – ou deixas, caso estejam a representar – e tenham um desempenho muito pior do que quando agem sem audiência.

Outro custo da visibilidade é a distracção do esforço. As pessoas estão interessadas na sua reputação e imagem. Consequentemente, demoram-se na gestão das impressões. Esta necessidade de gastar tempo e outros recursos na manutenção da sua imagem aumenta à medida que o escrutínio público se intensifica. E o tempo despendido a lidar com o escrutínio e a gestão das aparências é o tempo que não pode ser gasto em outros aspectos do trabalho.

Custo 2: Perda de Autonomia

Quem está no poder, quase sempre perde autonomia sobre os seus horários. Porquê? Simples, as suas acções deixaram de depender das tarefas que lhe foram atribuídas. Primeiro, ninguém lhe atribuí tarefas, você é responsável por isso mesmo. Segundo, as tarefas que impõe a si próprio, quase sempre, são dependentes de outros, ou seja, mesmo que queira tratar do assunto x amanhã, só o poderá fazer se as outras partes envolvidas estiverem disponíveis.

Além deste emaranhado de dependências, tem ainda o problema dos interesses futuros por tratar:

No início, num cargo poderoso todas as exigências de atenção são lisonjeiras – afinal de contas, é óptimo que tanta gente nos queira ver. Por conseguinte, pessoas que foram promovidas há pouco tempo tendem a ficar sobrepujadas pelas exigências horárias inerentes ao cargo mais poderoso. Não pretendendo recusar pedidos de grupos e indivíduos de cujo apoio podem vir mais tarde a precisar, e cuja atenção valorizam, as pessoas poderosas podem facilmente dar por elas com a agenda sobrecarregada e a trabalhar demasiadas horas, algo que lhes drena a energia e as deixa incapazes de lidar com os desafios inesperados do trabalho. Ao fim de algum tempo, a maioria dos CEO e líderes empresariais que conheço bloqueiam tempo para si e para as suas actividades que pretendem fazer. Mas todos eles referem a perda de controlo de com quem passam o tempo como um dos grandes custos de se estar numa posição de poder.

Custo 3: O Tempo e Esforço Exigidos

Relativamente ao tempo e esforços exigidos, acho que estamos todos de acordo que não é o mesmo que o de um funcionário “normal”. Por muito que se fale de boca cheia que o cargo de chefia, ou “dono da empresa”, é uma tarefa fácil… todos temos que concordar que é mesmo só isso, palavras que saem sem qualquer veracidade. Essa ideia é fruto, precisamente, da velocidade alucinante que a vida das pessoas com cargos de chefia têm, são tão mexidas e tão aceleradas que aos outros dá impressão que não fazem nada, porque nem sequer “os vêem na empresa”.

Criar e manter o poder exige tempo e esforço, não há como negá-lo. O tempo passado na procura pelo poder e pelo estatuto é tempo que não pode gastar em outras coisas, como passatempos ou relações pessoais e familiares. A procura pelo poder muitas vezes tem um custo elevado sobre a vida pessoal e, ainda que todos se vejam a braços com algum custo, o preço parece ser especialmente mais elevado para as mulheres.

O compromisso entre uma carreira de sucesso e uma família, e o facto de as políticas sociais na maioria dos países industrializados não proporcionar grande ajuda a contornar esta situação, é uma das razões para que virtualmente todos os países industrializados, à excepção da França, tenham uma taxa de natalidade abaixo da de reposição natural. A investigação mostra que ser casado e ter filhos, ou não tem efeito, ou tem um efeito positivo sobre as carreiras dos homens, ao passo que o efeito é negativo sobre as carreiras das mulheres.

Obter e manter o poder rouba tempo aos amigos e à família. Este é um preço que algumas pessoas estão dispostas a pagar, mas é um custo inevitável ao procurar posições poderosas e com estatuto, que exigem tempo, energia e concentração no sucesso.

Custo 4: Dilemas de Confiança

Eis uma verdade simples: quanto mais alto se sobe e mais poderoso o cargo de ocupa, maior o número de pessoas a querer ficar com o seu emprego. Consequentemente, manter-se num cargo de grande poder cria um problema: em quem confiar? Há quem vá procurar criar uma oportunidade para si próprio através da sua queda, mas essas pessoas não serão transparentes quanto ao que estão a fazer. Haverá quem tente obter os seus favores ao dizer-lhe o que pensa que quer ouvir, para que goste dele e o ajude a progredir. E algumas pessoas farão ambas as coisas.

Quando se está no poder, provavelmente não se deve confiar demasiado em alguém dentro da organização a que se pertence, a menos que se esteja certo da sua lealdade e de que não está atrás do seu cargo. A vigilância constante exigida por parte daqueles que detêm poder – para se certificarem de que ouvem a verdade para manterem a posição relativamente aos adversários – é mais um preço a pagar por ocupar lugares que muitos outros pretendem.

Custo 5: O Poder Como uma Droga Viciante

O último custo associado ao poder está directamente relacionado com a sua perda e com o ritmo de vida levado enquanto num cargo de poder. Se vive os seus últimos anos a uma velocidade vertiginosa, habituado a dias de trabalho cheios de actividade frenética, assim que se encontra sem trabalho, ou num trabalho substancialmente mais calmo, irá ressentir-se.

As pessoas correm um maior risco de morte no período imediatamente a seguir a perderem o emprego – e não apenas por causa de maior tensão financeira ou da perda de seguro de saúde. Tal como escreveu Michael Marmot, um investigador britânico que estudo os efeitos da posição social na saúde, um motivo para a existência de uma ligação entre não trabalhar e a falta de saúde é o facto de estar sem trabalho “representar a perda de um papel social e de tudo o que isso acarrecta”.

O poder é viciante, tanto num sentido psicológico como físico. A excitação de se estar envolvido em discussões importantes com figuras destacadas e o bálsamo para o ego que advém de ter pessoas à sua disposição é difícil de se perder, mesmo que se escolha a reforma voluntária, e mesmo que se tenha mais dinheiro do que alguma vez se conseguirá gastar. Numa cultura obcecada com o poder e a celebridade, estar “sem poder” é estar forma da ribalta, longe da acção e ser quase invisível. É uma transição complicada.

4 comments

  1. Hugo Novo

    Resumindo, o Poder é realmente “um básamo para o ego” e aí está o perigo de perda de equilibrio mental.
    Vamos lá ser humildemente trabalhadores 🙂

    • Boas Hugo,

      quase que concordo contigo, só discordo no facto de que toda a empresa tem que ter uma estrutura. Estudos, referidos no mesmo livro, mostram que as próprias pessoas criam um ambiente hierárquico e só conseguem corresponder perante um sistema hierárquico. Isto significa que vamos sempre precisar de pessoas com poder nas nossas organizações.

      Agora a questão que se levanta é: esses cargos de poder pertencem a quem realmente é nato para exercer poder ou é um cargo atribuído a um ganancioso com o vicio de mandar?

      Abraço e continua a comentar, vamos criar um espaço de debate nos artigos!

  2. Hugo Novo

    O meu breve comentário refere-se apenas ao facto da pessoa inflamar o ego com o poder.
    Obviamente que a hierarquia de responsabilidades e de gestão do conhecimento é fundamental numa organização, mas a doce tentação do poder fácil, agressivo e/ou egoista estará sempre a bater à porta dos menos preparados para liderar pessoas e seus respectivos processos.
    Nesse caso, visão e poder andam de braço dados, caminhando no sentido da pro-actividade e do planeamento, construindo um caminho que se vai ajustando aos objectivos e desafios encontrados ao longo do tempo, tendo sempre como base o respeito humano e o ajuste às capacidades de cada ser.

    Isto é o que tenho encontrado nos bons lideres com quem trabalhei ao longo da minha carreira e em oposição, o que não tenho encontrado nos que ficam aquém. Neste caso até se pode aplicar o principio de pareto, ficando os bons exemplos com os 20%.

    Mas isso é apenas a minha experiência pessoal. Acredito que hajam mais e melhores 🙂

  3. E tens toda a razão.

    Essencialmente o que se pede é um poder com sentido de liderança, porque poder e liderança são coisas distintas.

    Um bom líder é alguém com poder e que sabe dar uso ao poder que tem, o contrário já não é verdade e muitas vezes o problema é mesmo esse, pessoas com poder sem o mínimo sentido de liderança.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: