4 Lições Que um Gago Pode Ensinar

A gaguez é um tema tabu na sociedade portuguesa e, como qualquer tabu, a informação e a formação dos seus constituintes em relação a este tema não é a melhor. A consequência? Os gagos, que em Portugal são perto de 100 mil, também não aceitam essa iliteracia e retraem-se

Se nos deslocarmos para os EUA, onde mais de 3 milhões de pessoas (pouco menos de um terço da população portuguesa) enfrentam o “problema” da gaguez, é possível ganhar noção e consciência de que não faz sentido criar um ambiente constrangedor e hostil para as pessoas com estes sintomas. Se falarmos à escala global, encontramos um número superior a 68 milhões de pessoas a sofrer do mesmo mal. A especial diferença entre países como os EUA e Portugal, é que no primeiro até anúncios publicitários que abordam o tema podemos ver na televisão; no segundo, nem na televisão, nem nas escolas e muitas vezes nem em casa se aborda o tema.

Mesmo perante todo o desconhecimento da nossa sociedade sobre o problema, posso-vos garantir que há 4 lições que eles lhe podem ensinar e melhor do que isso, 4 lições que eles lhe podem ensinar bem. É verdade que a gaguez encontra-se muita vez associada a falta de inteligência, a falta de capacidade ou até a uma deficiência. O que a história e o presente nos contam é que esta ideia é a mais falsa da sua espécie: W. Chuchill, F. Roosevelt, B. Willis, M. Monroe, S. O’Neill, N. Kidman, e conhecido mais recentemente J. Saramago (entre outros), todos eles eram/são gagos e todos eles vão ficar marcados na história.

Então, o quê que um gago nos pode ensinar?

  1. A reinvenção acontece todos os dias. Esta é a primeira lição que um gago pode ensinar. Devido à sua condição, um gago reinventa-se todos os dias à procura de se conhecer melhor e de chegar a um estado que considere aceitável, ou seja, um estado em que ele próprio se aceite. O problema surge, mesmo quando atinge esse estado aparentemente aceitável, por obra de uma força superior qualquer, quando tudo se perde e entra novamente num estado que considera inaceitável. Isto não o lembra a si noutras áreas da sua vida? Precisamente, o que você precisa é de uma constante reinvenção, uma constante procura pelo que lhe faz sentir bem e sentir positivo.
  2. Se não fizer por si, quem o fará? A segunda lição está directamente ligada a um dos problemas essenciais que os gagos enfrentam no seu dia-a-dia. Conhecendo a sua potencial limitação, o gago evita a todo o custo pactuar com actividades que lhe obriguem a expôr qualquer tipo de informação oral ou simplesmente que o obriguem a falar. Uma simples ida ao café com um amigo, o gago sugere que seja o amigo a pedir; um simples telefonema para um restaurante, um gago delega a tarefa para outra pessoa. Mais uma vez, não revê certas acções da sua vida neste espelho? E quando estamos perante tarefas que só nós podemos encarar? E aquela apresentação que o gago fará no trabalho na próxima semana? É verdade, mesmo conhecendo a sua limitação enfrenta-a e melhor, põe todas as forças e faz o máximo esforço possível para dar o seu melhor! Nunca se esqueça que ele não se sente bem com a sua condição e por isso irá dar tudo por tudo para que corra bem. Faça o mesmo no seu dia-a-dia e coisas fantásticas irão nascer.
  3. Conheça as suas limitações e dê o máximo nas suas melhores capacidades. É essencial conhecer as suas limitações. A aprendizagem ou o aperfeiçoamento é qualquer coisa que se faz sobre algo que se julga ser o nosso tendão de Aquiles. Dar o máximo nas suas melhores capacidades permite criar um equilíbrio entre o que é capaz de fazer bem e o que é capaz de fazer menos bem. Através do conhecimento das suas limitações pode concentrar parte do seu tempo a melhora-las e, quem sabe, juntar uma das suas fraquezas à sua lista de melhores capacidades. É isto que um gago faz todos os dias. Vive completamente ciente da sua limitação mas isso não o impede de tentar melhorar e não o impede de colocar todos os esforços nas suas melhores capacidades. Comece por escrever num papel duas ou três coisas que acha que são os seus pontos fracos. Estabeleça metas sobre acções a fazer sobre essas limitações.
  4. Seja honesto e nunca fuja de si mesmo. A vida de um gago é uma constante procura por este quarto ponto porque sabe que quando o atingir passará a viver bem consigo próprio. Isto aplica-se a todas as áreas da sua vida, do trabalho à sua rede de relações. Garanta que se algo correr mal tem pelo menos um refúgio no seu consciente que lhe permite saber que o que fez fê-lo bem e que seguiu os seus princípios.

A comunicação não é apenas composta por fala, é também composta por gestos, emoções e atitude! A atitude que um gago demonstra são estas 4 lições que se aplicam a várias áreas da sua vida e que você pode aproveitar para começar a pensar nelas.

4 comments

  1. J. Sousa

    Muito me surpreendes com estas 4 lições. São o principio, o meio e o início do fim para atingires o sucesso nao dia a dia, nas intervenções, nas conversas, nas apresentações como já concluiste.

  2. É um ponto de vista muito interessante! Demonstra, que às vezes, limitamo-nos mais por uma “gaguez de atitude”.

  3. Gostei muito do teu texto. partilhei no meu facebook e sugeri a todos para que o lessem. a verdade é que, enquanto gago, me revejo no teu texto. sugeria que o partilhasses no grupo google sobre gaguez!

    abraço
    daniel

    • Caro Daniel,

      agradeço-lhe desde já os seus elogios, também são necessários para dar animo.

      Eu também sou gago e quando paro para pensar, o que concluo é o conteúdo do artigo que publiquei. Afinal, nós gagos, temos razões para sermos uma fonte de inspiração e não um alvo de chacota. Mesmo perante a nossa condição não viramos as costas à luta e temos que ir em frente porque ninguém poderá caminhar por nós.

      Abraço,
      Hugo Sousa

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